Com a problemática das alterações climáticas cada vez mais na ordem do dia, o conceito de “pegada ecológica” começou também a entrar no quotidiano dos portugueses. Mas será que o seu significado é conhecido? Ora, por pegada ecológica entende-se a área de que um cidadão ou comunidade precisa para produzir o que consome (terras para cultivo, pastagens, florestas, zona de pesca, etc) e capaz de absorver o lixo que faz.

Em Portugal, a aferição deste número foi feita pelo Projecto Pegada Ecológica dos Municípios Portugueses, uma parceria da ZERO – Associação Sistema Terrestre Sustentável, da Global Footprint Network e da Universidade de Aveiro. 

A pegada ecológica de 2016

Na verdade, não há números globais da pegada ecológica portuguesa actualizados. No ano passado, apenas seis municípios (Almada, Bragança, Castelo Branco, Guimarães, Lagoa e Vila Nova de Gaia) se juntaram ao projecto para conhecer os números de 2016

Os resultados mostraram que são os municípios com maior população a liderar a tabela da pegada ecológica. Gaia ficou em primeiro lugar, com 2,9%, seguida de Almada, com 1,7% e logo depois Guimarães, com 1,4%. No lado oposto da tabela, os municípios com menor pegada ecológica são Lagoa (0,2%), Bragança (0,3%) e Castelo Branco (0,5%).

Olhando para os dados da Global Footprint Network, conclui-se que a pegada ecológica dos portugueses tem vindo a aumentar significativamente. Se em 2016 se ficou nos 2,52, em 1996 era de 2,15 e em 1961 de 0,73. 

Fonte: Associação Portuguesa de Nutrição. “Alimentar o Futuro: Uma Reflexão Sobre Sustentabilidade Alimentar”, 2017.

Importa sublinhar que, das 12 categorias analisadas, a alimentação é a que mais contribui para aumentar a pegada ecológica. Tudo graças ao consumo de carne – que nos municípios analisados varia entre os 23 e os 28% – e ao consumo de peixe – que ficou nos 26%. Isto explica que em 1961 a pegada ecológica fosse tão baixa: a base da alimentação era o que vinha da horta e os produtos de origem animal surgiam esporadicamente.

Os hábitos alimentares dos portugueses

Num e-book lançado pela Associação Portuguesa de Nutrição (APN) designado Alimentar o Futuro: Uma Reflexão Sobre Sustentabilidade Alimentar, são apresentados vários factos sobre os hábitos de consumo dos portugueses. 

Um deles é que os alimentos de origem animal predominam sobre os de origem vegetal na dieta portuguesa; outro que mais de 3,5 milhões de portugueses (o equivalente a 34% da população) consome mais de 100g de carne todos os dias. O consumo de peixe também se apresenta como uma preocupação: cada pessoa consome cerca de 20 quilogramas de peixe por ano, mais 10 do que há 57 anos.

Outro dado que importa ter em consideração é que a pecuária é uma das principais causas da produção e emissão de metano e óxido nitroso, gases que contribuem para o efeito de estufa. Finalmente, sobre a produção agrícola, é de sublinhar que apenas 20% da área de cultivo em Portugal se destina à produção de bens alimentares.

Produção de alimentos de origem animal

O e-book referido no subtítulo anterior faz a comparação entre os recursos necessários para a produção de um quilograma de vários alimentos. Compare-se o bife de vaca com o leite e o trigo. 

Para 1kg de carne são necessários 15,500 litros de água e 7,9 m2 de solo e são emitidos 16 quilogramas de dióxido de carbono; para o leite, os números passam para 1,000 litros, 9,8 m2 e 10,6 quilogramas, respectivamente. Em contrapartida, 1kg de cereal requer apenas 1,300 litros de água, 1,5 m2 de solo e emite 0,8 quilogramas de dióxido de carbono.

Assim, percebe-se que os alimentos de origem vegetal têm um muito menor impacto sobre o meio ambiente, sendo, por isso, mais sustentáveis.

 

Fonte: Associação Portuguesa de Nutrição. “Alimentar o Futuro: Uma Reflexão Sobre Sustentabilidade Alimentar”, 2017.

Processados

Além da origem dos alimentos, a Associação Portuguesa de Nutrição considera que o seu nível de processamento também influencia a sua pegada ecológica. 

Isto porque se devem ter em consideração factores como “as emissões de carbono e os custos em recursos e energia dos produtos processados que variam conforme, por exemplo, o modo de conservação (p.e. congelação, refrigeração, sem cadeia de frio), o tempo de conservação, o número de embalagens, o tipo de embalagem, o acondicionamento no transporte e a distância entre o produtor até ao consumidor”, lê-se no livro online.

Posto isto, a sustentabilidade alimentar passa, não só por escolher alimentos de origem vegetal, como também evitar processados e optar por alimentos o mais naturais possíveis: fruta, legumes, leguminosas, frutos secos, etc.

Alimentação vegetariana e sustentabilidade

“Refeições que incluam produtos de origem vegetal têm uma redução expressiva sobre a pegada de carbono, hídrica e ecológica” e “uma alimentação vegan pode causar menor impacto ambiental”, conclui a APN. 

A associação acrescenta ainda que “contrariamente, refeições apenas à base de alimentos de origem animal têm maior impacto sobre os indicadores ambientais supracitados”.

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